Montávamos uma tenda pequenina, daquelas tipo iglo de esquimó, no meio do nada. Quem sabe num sítio onde se pudesse ouvir o mar e o vento. Fazíamos uma fogueira pequena e jantávamos fruta (quem sabe até encontrasse na mala um 'fazedor' mágico de chantilly). Jogávamos cartas e ríamos das nossas batutices e das conversas que não têm nada a ver com nada. Quando os olhos começassem a pesar deitávamo-nos lá dentro, debaixo de uma mantinha e depois a vontade dir-nos-á até onde ir. Passava-te as mãos no cabelo sempre curto e afagava-te a cara entre as duas palmas puxando-a para mim até te tocar nos lábios com um beijo terno. 'És tão lindo!'.
Acordávamos e saíamos da tenda. Tu, calorento, com uma t-shirt e eu com uma daquelas camisolas largas e fofas que fazem lembrar abraços. A brisa fresca convidáva-nos a beber um café daqueles à canecada, de cevada, bem quentinhos. Sentava-me ao teu lado, no chão, com as pernas dobradas contra o peito e, com as mãos cobertas com a camisola, saboreava aquele café a ver o mar pelo contorno do teu perfil. Mais tarde passeávamos na praia e dávamos uns bons mergulhos com uns beijinhos salgados e uns abraços molhados. Quando te tentasses secar eu enroláva-te na areia até ficares a parecer um saboroso croquete. Ao almoço estendiamos uma toalha daqueles aos quadradinhos vermelhos e brancos nas dunas. Bebíamos sumo de melancia, comíamos salada e um peixinho grelhado (eu fazia o esforço se me tirasses as espinhas do animalzinho e não me mostrasses as ovas!). Mais tarde veríamos o pôr do sol laranja e vermelho no horizonte e tirávamos fotografias.
E éramos felizes ali, até querermos, até nos cansarmos da imensidão do mar e do amarelo dos muitos grãos de areia, até a pasmasseira de uma vida só a dois nos fazer imbirrar com os barulinhos de quando bebemos água, mastigamos ou ressonamos.
Foges comigo?
26 de abril de 2008
20 de fevereiro de 2008
Abri a janela da sala para deixar entrar o frio e renovar o ar pesado da manhã que houve aqui. Gosto de sentir os ossos gelar e ver os pêlos dos braços iriçar como os de um gato para depois conseguir dar valor à mantinha e ao sofá e a esta casa de paredes mal pintadas. Diz-se por aí muitas vezes que só se dá valor ás coisas, ás pessoas, quando já não as temos. É verdade e não há quem não o saiba mas só quando o frio nos gela é que sentimos o quanto conforta o calor. Só quando te vais embora com um "xau" vazio é que me grita o teu silêncio e a tua ausência, é que bato os pés, esperneio e atiro perguntas para o ar sem resposta.
Eu sei que voltas! Ou serei só eu que não vivo sem ti?
Eu sei que voltas! Ou serei só eu que não vivo sem ti?
9 de fevereiro de 2008
Sento-me num banquinho à lareira. Todos naquela sala que já não me conforta se emaranharam no emaranhado de cada uma das suas vidas. Desisti que os nossos dias se encontrassem, que os sorrisos fossem pelos mesmos motivos, que as trocas de ideias fossem feitas em tom médio e nunca num gritante conflito. Desisti que voltássemos a ser familia. Entreti-me sozinha na chama, fiz passear as minhas mãos por ali com dedinhos sonhadores de bailarina, apertei os caracóis desajeitadamente com um lápis que apanhei na mesinha para sentir o quente no pescoço despido, fingi de olhos fechados que conversávamos e ríamos e nos abraçávamos e nos interessávamos pelo dia-a-dia de cada um.
Se eu tivesse três anos e a idade dos 'porquês' me estivesse a atacar eu perguntaria à minha mãe agarrando-lhe as pernas: mãe, porque é que as pessoas mudam?
Mas, sem resposta, já só me resta a lenha em brasa cor vulcão dentro da caixinha de porta de vidro para me aquecer nestes dias de inverno com os dias contados.
Se eu tivesse três anos e a idade dos 'porquês' me estivesse a atacar eu perguntaria à minha mãe agarrando-lhe as pernas: mãe, porque é que as pessoas mudam?
Mas, sem resposta, já só me resta a lenha em brasa cor vulcão dentro da caixinha de porta de vidro para me aquecer nestes dias de inverno com os dias contados.
1 de fevereiro de 2008
Não entendo esta mania que o sol tem de se esconder atrás das nuvens feias de cinza que surgem sem avisar e me apagar aquele amarelo quentinho. Não gosto. Acabo por tirar o arco iris do pescoço e o sorriso néctar da cara. Levanto-me da relva, corro para o rio e atiro uma pedra bem grande para ver se o magouo, em vão.
Voltei para as minhas quatro paredes sem pressa naquele metro cheio. O betão era de uma cor triste como as nuvens, a poluição não fugia à regra, o ruído não passava de a banda sonora condizente. Tu não vieste. Não tive a tua mão para apertar nem o teu abraço para me proteger do frio que se começava a fazer sentir. Eu entendo: até tu, que és perfeito, tens o teu limite de paciência e eu tenho abusado da tua, tenho sido casmurra e triste nas palavras.
Enrrosco-me na mantinha azul piroso, ligo a maquineta quadrada da manipulação em massa, vario entre os canais nacionais e acabo por desligar. Fui buscar a maldita caixa que tem um mundo dentro e cometi o erro de a abrir. Está tão cheia de ti que parece que me deram um murro cá dentro do peito e me martelaram a cabeça. Só nos via deitados na relva, a rir, a conversar ...
Primavera volta!
Voltei para as minhas quatro paredes sem pressa naquele metro cheio. O betão era de uma cor triste como as nuvens, a poluição não fugia à regra, o ruído não passava de a banda sonora condizente. Tu não vieste. Não tive a tua mão para apertar nem o teu abraço para me proteger do frio que se começava a fazer sentir. Eu entendo: até tu, que és perfeito, tens o teu limite de paciência e eu tenho abusado da tua, tenho sido casmurra e triste nas palavras.
Enrrosco-me na mantinha azul piroso, ligo a maquineta quadrada da manipulação em massa, vario entre os canais nacionais e acabo por desligar. Fui buscar a maldita caixa que tem um mundo dentro e cometi o erro de a abrir. Está tão cheia de ti que parece que me deram um murro cá dentro do peito e me martelaram a cabeça. Só nos via deitados na relva, a rir, a conversar ...
Primavera volta!
21 de janeiro de 2008
O Sol estava pintado de amarelo garrido e tingido de tangerina. Vesti uma blusinha larga e um colar arco-íris, saí! Corri para o túnel do metro, bati o pé repetidamente com frenesim como se quisesse avançar os números do relógio digital para que aquele monstrinho ruidoso se apresasse a levar-me daquele ambiente de ferro e betão onde o trânsito se ouve alto. Uma lufada de ar fresco, um chilrear amoroso, uma outra cor que não o cinza... era o que apetecia naquele dia. Puxei-te a mão para ver se mexias os pés molengos e o corpo mal espreguiçado. Olhavas-me com boca de espanto por me veres tão eufórica. -Ela chegou amor! - Sussurrei-te ao ouvido por desejar que aquele fosse um segredo só nosso. Desejava que o sol, o cheiro, a brisa, a melodia fossem só nossos.
Por fim chegámos. Atirei a mala para o chão, tirei as sapatilhas e as meias. Senti aquela relva fresquinha debaixo dos pés e sentei-me com perninhas “à chinês”. Alisei o verde ao meu lado e fiz aquele sorriso de cabeça inclinada para a direita para que te sentasses também e tu abriste um sorriso e acedeste ao meu pedido, tinhas finalmente entrado no espírito e percebido a minha urgência. Apontaste para uma papoila muito vermelha que balançava sozinha na grama e disseste “aquela é tua!” ao que eu respondi brincando “amanhã venho aqui regá-la!”
Olhei em volta. Só havia meia dúzia de pessoas que passavam apressadas de corpo estafado, cabeça baixa e cara de dia chuvoso mas nem quis pensar no porquê, como geralmente faço. Olhei o rio de um azul fugidio e uma calma tranquilizadora dos sentidos. Atirei uma pedrinha que deu saltinhos até se perder naquela água imensa. Respirei o mais fundo que consegui para reter aquele ar aparentemente puro dentro de mim. Reparei nos passarinhos indecisos a voar de ramo em ramo a cantar à desgarrada. Fixei-me, então, no teu olhar negro e brilhante. Beijei-te. Escorreu-me uma lágrima tímida de felicidade pela face gorducha até sentir o sal nos lábios. Deitei as costas no húmido de toda aquela natureza. Enrosquei a cabeça naquele lugar onde acaba o teu pescoço e começa o teu peito. Abraçaste-me e eu Sorri. Chegou a Primavera, uma que é só minha e tua, uma que é os nossos sorrisos e os nossos abraços, uma que é as nossas caminhadas e as nossas paisagens.
Porque a Primavera não é uma estação do ano, é o estado de espírito que ele faz nascer em mim mesmo nos dias de terrível tempestade!
Por fim chegámos. Atirei a mala para o chão, tirei as sapatilhas e as meias. Senti aquela relva fresquinha debaixo dos pés e sentei-me com perninhas “à chinês”. Alisei o verde ao meu lado e fiz aquele sorriso de cabeça inclinada para a direita para que te sentasses também e tu abriste um sorriso e acedeste ao meu pedido, tinhas finalmente entrado no espírito e percebido a minha urgência. Apontaste para uma papoila muito vermelha que balançava sozinha na grama e disseste “aquela é tua!” ao que eu respondi brincando “amanhã venho aqui regá-la!”
Olhei em volta. Só havia meia dúzia de pessoas que passavam apressadas de corpo estafado, cabeça baixa e cara de dia chuvoso mas nem quis pensar no porquê, como geralmente faço. Olhei o rio de um azul fugidio e uma calma tranquilizadora dos sentidos. Atirei uma pedrinha que deu saltinhos até se perder naquela água imensa. Respirei o mais fundo que consegui para reter aquele ar aparentemente puro dentro de mim. Reparei nos passarinhos indecisos a voar de ramo em ramo a cantar à desgarrada. Fixei-me, então, no teu olhar negro e brilhante. Beijei-te. Escorreu-me uma lágrima tímida de felicidade pela face gorducha até sentir o sal nos lábios. Deitei as costas no húmido de toda aquela natureza. Enrosquei a cabeça naquele lugar onde acaba o teu pescoço e começa o teu peito. Abraçaste-me e eu Sorri. Chegou a Primavera, uma que é só minha e tua, uma que é os nossos sorrisos e os nossos abraços, uma que é as nossas caminhadas e as nossas paisagens.
Porque a Primavera não é uma estação do ano, é o estado de espírito que ele faz nascer em mim mesmo nos dias de terrível tempestade!
2 de janeiro de 2008
Os sorrisos bonitos, grandes, quentes. Os risos altos, esganiçados, descontrolados. Os passos de dança emprovisados, engraçados, esquisitos. Uma garrafa numa mão e a outra livre para dar palmadinhas nas costas, passar a mão no cabelos, afagar as caras. As festas com amigos são assim! Obrigada por terem vindo e por terem enchido esta casa do que mais lhe faz falta ... barulho : D
Excelente 2008 !
Excelente 2008 !
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